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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

CARTAS ANÓNIMAS



Não preciso de olhar para trás. Bem sabemos que o passado é coisa que o pensamento nos estende à frente dos olhos, nos lugares mais impróprios e sem hora marcada. Já não vergo os joelhos nem tombo sobre o peito quando olho para dentro do passado. Já não preciso de acender a luz para ver as esquinas onde tantas vezes bati até sangrar. Abriu-se uma janela e depois uma porta. Agora posso entrar e sair, visitar as ruinas, em plena luz. Agora o teu rosto ficou claro e posso percorrer cada traço talhado na memória, sem sentir nos dedos a cicatriz da ausência. Que a ausência, o não ser nada, é por vezes a dor invízivel que nos deforma. Sobre o teu rosto estendo agora um poema branco, contracapa de um amor incompleto. No íntimo do poema, sei que serei sempre tua, mesmo quando já não souber quem somos. Agora posso respirar para lá do teu rosto e amar outro amor que seja meu.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

COISAS PARVAS

Ainda a lua de Março, em pleno dia
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Tenho a minha maneira de ser bem caracteristica, como todos nós temos.
Valorizo demasiado a minha privacidade.  Passo longos períodos sozinha, mas gosto do convívio. Não gosto de confusões, nem gosto de ser confundida, por isso gosto de espaços amplos - no sentido de não muito preenchidos - e claros - no sentido de transparentes, onde me sinta reconhecida e admirada e onde possa observar com clareza, reconhecer e admirar.
Gosto da simplicidade porque a filtro como uma grandeza.
Gosto de reciprocidade. Não necessáriamente de uma correspondência total e mútua de ideias, ideais ou sentimentos, mas de demonstração de afectos e considerações.
Destesto o desprezo. Poucas pessoas o merecem por muito ruinzinhas que as consideremos.
Adoro dialogar, no verdadeiro sentido de trocar palavras e opiniões.
Gosto de partilhar todo o tipo de coisas, materiais e imateriais.
Gosto de petiscar, de rir, de contar anedotas e de cantar ópera no banho.
Gosto de renovar coisas velhas ao invés de as deitar fora.
Gosto de brincar com as palavras, de lhes dar sentidos ocultos, mais do que um sentido e, sobretudo, de lhes dar sentimentos e vida.
Gosto de seduzir e de ser seduzida, de desejar e fazer-me desejada subtil e discretamente, mas de uma forma intensa.
Gosto de pessoas que não têm medo de arriscar e de viver. E de pessoas que têm medo de arriscar e de viver. Gosto de pessoas.
Gosto do silêncio mas não gosto da ausência.
Gosto da lua cheia. E gosto da lua mesmo quando não está cheia!
Gosto de ti, mais do que da lua.

domingo, 17 de abril de 2011

DIGO-TE A DEUS OU CONTO-TE HISTÓRIAS


(Uma senhora idosa que passou por mim, teve a bondade de partilhar comigo o seu ramo benzido. Disse-me que tinha de o deixar secar e guardar até ao próximo Domingo de Ramos, para dar sorte. O cheiro do alecrim alegrou o meu domingo.)
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Quando acordei sentei-me no bordo da cama com os pés enlaçados a bambolearem, em frente ao espelho onde se via o meu corpo nu. As almofadas espalhadas pelo chão do espelho, os malmequeres sobre a mesinha e um retrato ao fundo junto aos estores corridos. Acordei contigo na cama. Sei muito bem que te tinha ali, posso jurar que ambos os lados do colchão estavam quentes e que ainda respiravas quando abri os olhos. Depois desapareceste! Fiquei muito tempo a ver se te encontrava no espelho, um reflexo filtrado, qualquer coisa que me indicasse que ainda estavas por partir. Tu sabes, embora não prestes atenção, como é duro quando partes, pois nunca sei quando voltas, e eu não sei estar sem ti. Espero-te em silêncio, em silêncio entras adentro pelo escuro do quarto e raptas-me o corpo de repente. O corpo. Há muito que me raptaste por dentro. A alma. E adormecidos conversamos pela noite afora. Mas, mal o dia desperta, tu desapareces e eu fico a dizer-te A Deus.
Depois saltei para o chão, abri a janela e tropecei com a manhã no espelho. A custo abri bem os olhos que se estenderam pelo quarto para ter a certeza de que ali não estavas. Veio-me à memória o teu sorriso quando, deitados no meio dos lençóis, puseste a mão na minha nuca e ternamente me puxaste pelos cabelos indo os meus lábios escorregar nos teus. Posso jurar que assim foi, mesmo que não te lembres, nem prestes atenção.
Fui fazer um café e espreitar a rua. Passavam pessoas que vinham da missa com ramos de oliveira e alecrim. É um vício isto de acordar, fazer café e espreitar a rua enquanto o café se faz. Tenho a certeza que ás vezes passas a noite comigo, embora nunca te veja partir nem atravessar a rua.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

INSPIRAÇÕES DE ÚLTIMA HORA

Ainda o Alentejo
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E se a poesia dos outros florisse na minha boca...
quantas coisas eu diria!
Tantas rosas te daria...

terça-feira, 5 de abril de 2011

QUE É DE TI?

Praia da Fonte da Telha - ontem - II
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"Uns têm a sina de sonhar a vida.
outros de a colherem"

- Miguel Torga -

De tanto sonhar, por vezes esqueço-me de viver.
É à noite que o amor mais apetece.
É na penumbra que me ponho a tecer sonhos.
E acordo de madrugada já vestida para o dia.

Que fiz das mãos
com que haverei de colher a vida?

sexta-feira, 1 de abril de 2011

COISAS PARVAS

O meu pombo preferido, pousado na minha janela à conversa comigo.
- Em que pensas? - Perguntou ele.
- Que gostava de ter respostas às perguntas que não faço! - Respondi eu.
- E tu em que pensas? - Perguntei-lhe eu.
- Que gostava de ser um pombo correio. - Respondeu ele.

sábado, 19 de março de 2011

ESTOU FODIDA, ESTA NOITE!

O meu tempo é uma coisa inútil. O mau tempo é mais inútil ainda. Não vás por aí, digo-lhe em dias mais ventosos. Mais vale um licor beirão do que um beirão a saber a licor. Mas que se há-de fazer se o mau tempo nos empurra de volta ao mesmo tempo? O chão é de areia ou de pedra? Vê lá ondes bates com a cabeça! Ela ri-se com um sorrisinho estreloucado como se não compreendesse a força do destino em que caíu ou não acreditasse em forças para além das naturais. Naturalmente que tem razão, sou eu a rezingar, num sussurro, aos seus ouvidos moucos.
Sento-me colada ao parapeito da janela, a olhar as estrelas com desdém, ofereço-lhes um cigarro enquanto brindo com a lua um whisky murraça que nos há-de provocar uma ressaca inesquecível. Convidava-te a tomar um banho com sais de fruta e óleo de amendoa, mas é tarde, já tu sais pela janela antes que eu profira palavra. A luz das estrelas rasga-me os olhos! O sangue ferve-me nas veias como numa panela ao lume! Estou fodida! digo-te pelas costas, na tua sombra. Gosto das noites eternas e tu deixas-me eternamente só!

sexta-feira, 18 de março de 2011

A LUA

Esta é a lua que está aqui quase encostada à minha janela.

Mas esta, é a que está junto á tua janela.
Mau hábito este de viajar na lua para te visitar à noite!

sábado, 12 de março de 2011

A VIDA É INJUSTA


Ele disse-lhe:
- Se não te amasse, talvez nunca pensasse em ti!
De tão sufocada e cansada da persistência dele, ela respondeu-lhe:
- DEIXA-ME EM PAZ. Desaparece da minha vida. Até sempre.
Ele retorquiu:
- Quando se ama não se tem PAZ. E isso é algo que só tu me fizes-te saber. Não desaparecerei, o meu espaço é ao teu lado. Tenho todo o tempo do mundo para esperar. O TEMPO É ETERNO.
Ela ficou sem forças para responder de tão enervada que se sentia.
Porém, estas palavras deixaram-na a pensar.
De facto é bem verdade que quando se ama não se tem paz, principalmente quando se ama só, quando se ama unilateralmente, quando se ama alguém que nem se lembra que nós existimos. Dói! 
Mas o tempo é eterno? Para quem? Para quê?
Dá dó! Ela sente uma pena infinita dele e dela própria!
O amor, não deveria vir sempre acompanhado da possibilidade de se concretizar?
Ou, no mínimo, não deveriamos ter forças suficientes para nos afastarmos, eclipsarmo-nos de vez, ao invés de perseguirmos quem não nos quer?

quarta-feira, 2 de março de 2011

GOSTAR DE TI


Gosto de ti.
Ás vezes fico zangada por gostar de ti.
E gosto de ti mesmo quando estou zangada por gostar de ti.
Mas quase sempre gosto de ti com ternurice que é um gostar de gostar de ti.
Deixo-te um poema que parece falar de ti - que és a minha luz e me acompanhas em/no silêncio.

Há uma luz dentro de mim

Seja de dia ou de noite
trago sempre dentro de mim
uma luz.
No meio do ruído e da desordem
trago silêncio.
Trago
sempre luz e silêncio.

- Anna Swir -
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Something Changed - Pulp

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A CONTAR HISTÓRIAS

Chegas no silêncio da noite, apanhas-me entre a bruma escura do quarto e colhes-me pela cintura em gesto brando, contra os lencóis, os lábios mornos e húmidos vagueiam pelos flancos, em deslizes incendiários que soltam cabelos, garras e ais. E, ai! o meu coração bate tão apressado dentro do peito que os seios se movimentam como montanhas russas onde a tua boca brinca. Ai! Matas-me... de desejo! O som do despertador acorda-me e faz-me voltar à vida!

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A CONTAR HISTÓRIAS


Estava eu para aqui a matar o tempo do almoço quando encontrei um blogue que se chama "Tudo o que em mim não vês". O blogue de um rapaz que diz que se interessa, sobretudo, pelo amor, o amor verdadeiro. Fui lendo e pos-me a pensar. Este rapaz quer falar do seu amor abertamente, quer desabafar e expôr os sentimentos que lhe inundam o ser, o fazem viver e que também o oprimem. No fundo, é o que todos nós queremos, desabafar, empurrar cá para fora tudo o que nos aperta cá dentro. É que, por vezes, nos sentimos tão apertados que, se rasgassemos o peito, saíriam os sentimentos numa colossal explosão.
E o que é isso do amor verdadeiro? O amor, se é amor, não é sempre verdadeiro? Se o sentimos ele não é real? Ou será que se diz do amor verdadeiro aquele que é puro, desinteressado e se doa independentemente de qualquer circunstância?
Um dia dei conta de uma euforia tão estúpida quanto estranha! Um outro dia dei conta de um entusiasmo infantil e lírico a escrever dentro de mim coisas sem sentido. Um dia mais tarde dei conta de um desejo que me acompanhava e também se deitava comigo. Um dia que se seguiu dei conta de uma paixão a abalrroar-me as entranhas e a obrigar-me a acreditar em coisas em que não podia acreditar. Um dia dei-me conta que já era tarde. Havia qualquer coisa instalada dentro de mim com carácter duradouro, cansada de fingimentos e de se esconder. Hoje chamo-lhe amor. Que outra coisa lhe poderei chamar? É vivo e constante, teima em ficar, resiste ao tempo e à matéria. Alimenta-se de si mesmo, colhe pedaços do céu, pequenas coisas da terra, bebe na música e dança no papel. Então não é este um amor verdadeiro e puro? Para mim, este é hoje o meu amor, o meu único amor, o amor que escrevo, canto e sinto com todos os sentidos.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A CONTAR HISTÓRIAS



Em dezembro o namorado deixou-a com uma simples frase "Não me quero prender." Caíu numa depressão terrível! Chorava compulsivamente, enfiava-se na cama dias a fio e chegou a dizer-me que a vida não tinha sentido nenhum, que preferia vê-lo morto, que não aguentava mais a dor e que fazia uma asneira, punha termo a tudo! Levava a vida a telefonar-lhe, a enviar-lhe mensagens sem resposta e a escrever-lhe cartas. Inventava justificações e argumentos, dizia-me:
- Ele ama-me, mas tem medo de sofrer. Sinto que ele me ama, mas não tem capacidade para enfrentar o amor, para se prender. Eu conheço-o, tem medo de vir a sofrer.
E eu dizia-lhe:
- Tu não o conheces. Mete na cabeça que ele não te ama. Ponto final. O amor não é uma prisão. Sente-se preso porque não sente amor. É mais fácil assim, é a maneira de te libertares. Arranja outro, nada melhor que um novo amor para esquecer um velho amor.
E ela respondia-me:
- Não entendes! Eu amo-o profundamente, ele é o homem da minha vida, nunca vou deixar de o amar. Reencontrei-o vinte e oito anos depois e sei que é para sempre. Não posso viver sem ele.
- Claro que podes. O que reencontraste foi um homem que já não conheces. Durou cinco meses? Como podes saber da eternidade em cinco meses? Esquece, já morreu. Agora apaixona-te, há muitos homens à espera de se apaixonarem.
Apaixonou-se! Agora anda a rir e a cantar, os olhos a brilharem, põe músicas românticas, mensagem para cá, mensagem para lá, só falta a coisa concretizar-se. Ontem, enquanto fumavamos um cigarro perguntei-lhe:
- Que aconteceu ao teu profundo amor?
- Não sei! Tinhas razão, já nem me lembro dele! - Respondeu a rir-se. - E tu, como podes ser tão racional!?
- Uhmmmm! Incrível! Quase que te matavas por amor e afinal!... eu? Que hei-de dizer de mim? Sou um ser racional, tu própria o dizes. E não sou mais do que isso. - Respondi.
Eu sou aquilo que os outros conhecem de mim e só isso.
Eu atravesso o deserto, mas não estou sozinha, tenho o céu sobre mim e transporto sonhos no coração.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A CONTAR HISTÓRIAS



Chove, mas o sol espreita entretido no faz-de-conta que me põe a contar histórias. Este inevitável dizer de coisas quase banais, como num encontro quase casual em que fica por falar o desejo que o ventre esconde e só a água reflecte se olhada dentro de si mesma.
Observo a ventania que percorre as ruas com uma força rija, as pessoas que caminham vergadas pelo tempo(ral) que lhes varre as vidas, a chuva que escurece este final da manhã em que acordei com música no corpo e a dança nos pés. Escurece do lado de lá da minha janela, avizinha-se a tempestade e eu sorrio por um qualquer sentimento de ternura que me prende à terra. A tempestade passará e eu terei sobrevivido para enfrentar o estio que virá depois. Ano após ano. Viagem sem roteiro e sem retorno. Estação após estação, numa espera que acumula passagens de nível. E é neste silêncio íntimo vivo e real que desenho as palavras que falam de ti e escrevem o teu nome. E se um dia voltares a subir cada página como um degrau, cada frase como um atalho, saberás que é de amor que se faz o ritual. E eu sou um livro, do qual se desprendem as palavras para abraçar-te em silêncio.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

...

Sim, penso em ti.
Desdobro-me,
multiplico-me e
perco-me
a pensar em ti.

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(O fim-de semana foi muito divertido, mas a viagem para cima, ontem à noite, foi um verdadeiro inferno! Apanhamos uma gastroentrite e mal nos seguravamos de pé, tivemos de parar em tudo o que era àrea de serviço. Ainda ando para aqui a arrastar-me, muito fraquinha,)
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E PORQUE HOJE É O DIA DO AMOR

«Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
E quase ia morrendo com o receio de que ele não te coubesse no dedo.»

- Jorge Sousa Braga -

«Quando olhas as estrelas, ah! minha estrela, eu queria ser o céu
Com mil olhos para te contemplar da minha altura.»

- De Arnaldo a Luma -

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A QUEDA DE UM ANJO

"A queda de um anjo".
Não há anjos! Não há deuses, nem semi-deuses! Por Zeus! Como poderia eu justificar o meu eu obscuro, o meu eu alucinado, o meu eu raivoso, o meu eu mais ardente? Que se soltem os cães!
Ah! A dolorosa, a maravilhosa realidade!
Amanhã, bem cedo, vou para Albufeira, com uma amiga tão frustada quanto eu. Partilharemos as nossas desventuras com muitos copos e muita animação, espero. Desejo a todos um bom fim-de-semana.

Ah!... Camilo Castelo Branco.

A CONTAR HISTÓRIAS

Há muito que invento histórias. Sem querer apercebo-me que Fevereiro é o mês das histórias. E que muitas histórias se resumem a uma só. Vai longo o tempo, poderiamos falar do tempo, como quem não tem mais nada para dizer. Antes falava de ti, mas agora é contigo que falo. Sentemo-nos numa esplanada, de frente para o mar, não de frente um para o outro, prefiro assim, que já não me atrevo a olhar-te nos olhos. Posso então dizer-te que um dia me pareceste um destino. Coisa mais tola! Era o coração perdido a inventar uma razão para bater. posso dizer-te que, de manhã, passa na rádio aquela música, é assim todas as manhãs, para castigo meu! Para evitar esquecer-te, como se a vida quisesse punir-me. Ás vezes trava-me a respiração e penso que é um sinal, que não pode ser por acaso todas as manhãs, aquela música a passar na rádio.Com tantas músicas para passar! Digo-te que ainda hoje estremeci quando inventei que era o destino a dizer-me que ainda estou na tua mente. Mas a minha mente mente-me quando invento histórias de destinos.
O mar está calmo. Posso segurar-te na mão, por breves instantes, acariciar-te os dedos ao de leve, como se fosse a brisa a beijar-te e deixar-me ficar no silêncio, os olhos presos no mar, neste mar que deixou de chamar por mim. Basta-me a tua mão para me fazer feliz, essa mão que não voltará a escrever o meu nome. Fiquemos em silêncio. Bem sabemos que foi no silêncio que se deram os nossos encontros mais profundos. Que o vento leve os nossos nomes, já não nos fazem falta. Queria poder encostar o meu rosto no teu ombro e sentir-te a respiração quente na pele, abandonar-me no teu cheiro, perder-me no mar. Mas basta-me a tua mão num toque de um minuto, para que a vida me pareça inteiramente feliz. 
Posso agora despertar, devagarinho, para não tropeçar na tristeza. 

ROSA CAÍDA

Oh meu amor secreto 
meu íntimo poema
minha fonte de desejo
meu pecado mor.

Pudesse eu ter sempre luz 
e voz e asas.

Arranca a raíz.
Que eu colha a liberdade
da súbita morte.

E ressuscitada viva,
incerta, frágil, mas altiva.