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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

CARTAS ANÓNIMAS


Doce é este inferno de nos amarmos nos feriados da vida.
O teu amor é amovível. Ferve num jogo de ardências em que uma de nós é a cabra, a outra a cega. E eu finjo acreditar nas verdades que mentes. O meu amor é um champanhe francês, efervescente e escorregadio, servido em taça de pecado. Agito-te em vertigens sanguineas. Ficas em desordem, sem identidade. Iceneras-me a pele. Estonteias-me. Perco a compostura. Que o meu corpo tem ideias que não cabem dentro dele. Mas por mais que me queimes é o frio que me inunda a mente. Que a minha solidão é extrema e determinada. Só o corpo evita o desastre. Entre o meu corpo e a minha mente há o lugar desabitado. Entre o teu amor amovível e o meu amor descartável, um gume pintado a vermelho.



quinta-feira, 29 de setembro de 2011

CARTAS ANÓNIMAS



Ouço o tilintar do gelo no copo. Os teus cabelos estão ao alcance da minha mão. Apetece-me afagar os teus cabelos, sabes... com uma violência amorosa incontrolável, daquelas que não magoam... poderias parar de balançar o copo? É que o movimento estonteante do líquido está a subir-me à cabeça, e só já vejo os teus cabelos cruzarem-se com os meus olhos! Falas como quem canta, contas histórias que me fazem estremecer de ciúmes e o meu corpo fica hirto, qual pedra de gelo no teu copo! Não vá eu descartar-me, enfraquecer, perder o jogo. Solto sorrisos parvos, lembro-me das coisas mais estúpidas, como a missa nos meus domingos de infância, invento amores da adolescência, digo-te que estou apanhado pela mulher da lavandaria. E o que eu queria, era arremessar o meu corpo contra o teu, com uma suavidade de posse escaldante. Desculpa. Dizia eu?... que o sabor dos teus lábios me parece uma noite entre o inferno e o céu.. Mas o raio do teu copo, a balançar, debruçado sobre as minhas pernas, assemelha-se a concerto de Bach e quebra-me voz!  Sim, claro, tens razão em tudo o que dizes, que eu, mergulhado no teu cheiro, perco a razão, ensurdeço, acabo mudo. E agora, que te vejo através da pedra de gelo a tilintar nos meus miolos... diz... não, não é isso... dava tudo para para te tomar nos meus braços. Então... tomamos um café amanhã?

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

CARTAS ANÓNIMAS


Cansei-me de escrever sobre o amor, de ler sobre o amor. São oceanos de palavras e não há ondas que cheguem para o definir ou descrever. O amor é dor... Que crasso erro! O amor não doí. O que dói é a falta dele. Quando o amor nasce é bruto. É como uma jóia não polida. Depois vai-se trabalhando e ganha imagem, textura. É fantástico quando nasce, mais bonito quando trabalhado. Quando ele se torna bonito colocamo-lo numa montra para que seja admirado, esquecemo-nos de lhe puxar o lustro e dar retoques. Ganha pó, envelhece, perde a graça e queremos substituí-lo para ter de novo o entusiasmo de todo o amor em bruto. O amor não dói. O que dói é a falta de amor!


sexta-feira, 6 de maio de 2011

CARTAS ANÓNIMAS


Tenho andado para aqui em conversa com o amor e decidi fazer um acordo com ele. Não que lhe tenha prometido a paz pois, conhecendo-me minimamente, bem sei que não sou de confiança quanto a estas coisas, mas assegurei-lhe que irei tentar conviver com ele com ternura e carinho, aceitá-lo como ele é, sem nada exigir, em troca ele dar-me-á serenidade, ajudar-me-á a crescer e a enfrentar o dia todos os dias.
Penso agora que tens razão, o amor pertence à alma. Um grande amor, para ser grande e grande morrer, deve ficar encarcerado na alma. Devemos, pois, mantê-lo aí e treiná-lo como a um cão que nos vai mordendo até assumir que o seu destino se confina à solidão do cárcere. Doemos o corpo a outro corpo que alma não lhe exija e alma não lhe entregue, para que possam mutuamente afagar-se e queimar os ensejos que, despropositadamente, tantas vezes assolam a pele. E sejamos completos nesta dualidade.
Que eu te ame, então, assim, a imaginar-te, sem querer teimosa e inutilmente mudar de rumo. Que o coração quebre, mas a alma não vacile nem se afunde. Que possa falar-te do sorriso das memórias, da forma como todas as noites me acaricias o sono, o que o pensamento conversa,  tantas vezes, contigo. Penso que me amas um bocadinho ou que talvez me tenhas amado um bocadinho. Que mesmo que assim não seja, deixa-me que o pense, para ter um poste a que me agarrar quando o vento soprar com força.
Que seja uma história de amor sem amor.

sábado, 23 de abril de 2011

O AMOR NÃO TEM MISTÉRIO ALGUM


Um dia o amor traiu-a. O amor traiu-a e ela não soube perdoar o amor. Arremessou-o para longe. Como quem solta um balão cheio de gás, bem sabendo que este amor jámais voltaria às suas mãos. Passou a vaguear pelas ruas,  pelos dias, pelas noites, pelas madrugadas. Não dormia, simplesmente andava, andava ao acaso. Muitas vezes atravessava a estrada estonteada, sem olhar, podendo ser que, por sorte, um carro sem travões lhe passasse por cima. Que a vida já a havia atropelado, mas via-se obrigada a respirar,  a suportar aquela morte lenta  e agoniada do coração. Certa vez, um condutor atrapalhado chamou-lhe louca, bem alto, no meio da avenida. Ela agradeceu-lhe e voltou para casa. Dormiu profundamente nos dias que se seguiram. 
Soube, então, que não se morre de amor, nem pelo amor. O que morre, é o amor. Que não é a vida que dói, mas aquilo que passa a faltar nela. A desilusão que sentia não era pelo outro, mas por si mesma. O outro era aquilo que sempre fora, ela é que havia criado um outro diferente. Porém, a maioria das pessoas são tão óbvias quanto as marés ou as estações do ano, não fosse a ilusão e a vida seria mais fácil. E menos encantadora, também.

Ainda assim, depois de tudo o que aprendeu, o amor continuou a atraí-la e a traí-la!

E, mesmo assim, ela continua a acreditar no amor!
Diz que quando o amor a traiu pela primeira vez, se desfez para sempre o mistério, é que o amor não tem mistério algum, o amor é o amor e é preciso arriscar tudo por ele.
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Nyc Moves To The Sound Of La - Funeral Party

quarta-feira, 20 de abril de 2011

CARTAS ANÓNIMAS

Gosto de esperar por ti. Gosto quando vens à hora habitual. Gosto quando vens, mesmo que a horas tardias. Quando te espero e não vens, o dia anoitece mais cedo, mas gosto de adormecer a pensar que o amor te vai trazer no dia seguinte à hora a que gosto de esperar por ti. E quando no dia seguinte  as horas passam e não vens, gosto de pensar que andas atarefado e a minha lembrança anda a par contigo para todo o lado, que amor é um modo de sentir que não cabe numa espera nem se esgota na chegada. Encosto-me aos dias a esperar-te, porque gosto de acreditar que virás sempre, mesmo que ás vezes não venhas. E se eu um dia partir, talvez cansada de te esperar, levarei saudades e este gostar de gostar.
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Dust on the dancefloor -The Leisure Society

quarta-feira, 13 de abril de 2011

CARTAS ANÓNIMAS

O céu do Alentejo
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Eu amava-a tanto! Ás vezes sentava-me na mesa da sala a trabalhar, enquanto ela andava pela casa nas suas tarefas. Sentava-me estratégicamente, escolhia sempre um lugar com um ângulo de visão que me permitisse observá-la. Nesses momentos perdia-me de mim, ficava a vê-la a andar de um lado para o outro, perdia-me de amor e carinho. Invadia-me um forte sentimento de gratidão por a ter na minha vida! Ia para casa mais cedo, com a mala do trabalho que levava por fazer, só para ter esse inexplicável prazer de desfrutar da sua presença, de a poder olhar. Penso que não poderia haver no mundo um homem mais grato do que eu.
Quando ela partiu com outro, com aquele que, afinal, amava, eu morri.
Não penses que te conto isto para que saibas que já atingi o topo do amor, que já não posso ir mais alto, que todo o amor agora é raso. Não, o amor é uma trepadeira, vai sempre subindo enquanto tiver onde se agarrar e o mais importante não é o quanto sobe, mas a força com que se agarra.
Não quero que penses que quando te abraço, ao contar-te estas coisas, o faço como se a abraçasse a ela. Quando te abraço, te aconchego o corpo contra o meu e te seguro nas mãos, estou invadido de ternura por ti. E sinto-me grato por te ter comigo, por te poder contar estas coisas e tu me ouvires com nítida ternura.
Esta noite não dormi. Fiquei acordado a ver-te dormir, a zelar pelo teu sono. De vez em quando aconchegava-te o lençól e parecias sorrir. Por vezes respiravas tão serenamente sobre o meu peito que a vida parecia suspensa num sonho imaginado. Depois inspiravas profundamente, içavas o peito a roçar-me o corpo e eu sentia a realidade a arrepiar-me.
Não quero ter segredos para ti. Sei que tudo é provisório e o futuro assusta-me. Receio pelas coisas que morrem, sinto medo da dor da perda e da desolação da ausência. Mas também sei que em cada novo amor que nasce, há sempre uma certeza de que valeu a pena ter morrido.

terça-feira, 5 de abril de 2011

CARTAS ANÓNIMAS

Fonte da Telha - IV
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Sabes bem que não mereço nem a ponta de uma saudade. Que tudo é perdido em mim desde o amanhecer ao deitar, desde o respirar ao sentir.
Abandonei-te um dia, à primeira contrariedade. Deixei-te apenas uma tristeza miserável e pedinte, um vidro lascado e encravado no coração.
Voltei a ti, por arrojada insistência tua ou mero capricho meu, para te abandonar de novo. Não te dei satisfação, nem volvi sinal aos apelos contantes que disparavas no meu peito. Não por indiferênça, não por crueldade, somente porque não sabia dizer-te, senão em silêncio, que não me pertenço. O meu amor não é teu, nem é meu. O meu amor é sozinho.
Sabes bem que não mereço nem a ponta de uma ternura. Que não sou de confiança. Que só voltarei a ti para te abandonar outra vez. Despejar-te nas veias o fel e despojar-te os mais fieis sentimentos. Assim o sabendo, que pretendes? Que alucinação te guia?
Consumir-te-ei, triturar-te-ei as entranhas mais profundas, acrescerei desejo ao teu desejo e mais dor à tua dor. Restará somente a raiva, depois o cansaço e, por fim, talvez a libertação!
Voltarei a ti. Haverei de abandonar-te como é meu costume. Acabarás por me odiar e depois esquecer. 
E seremos felizes para sempre.  

sexta-feira, 1 de abril de 2011

COISAS PARVAS

O meu pombo preferido, pousado na minha janela à conversa comigo.
- Em que pensas? - Perguntou ele.
- Que gostava de ter respostas às perguntas que não faço! - Respondi eu.
- E tu em que pensas? - Perguntei-lhe eu.
- Que gostava de ser um pombo correio. - Respondeu ele.

domingo, 27 de março de 2011

CARTAS ANÓNIMAS

Vagueio pelo silêncio como por uma estrada no deserto ou encerro-me em mim como num compartimento estreito onde durmo de olhos abertos debaixo de sombras vigilantes, onde encontro o dizer-te :
 ESQUECE-ME.
Estou cansado e gastei em sonhos um passado inexistente ou inventado em páginas de livros escritos a carvão, rasurados, ilustrados por imagens rabicadas e ambiguas. O tempo agora é outro. O tempo agora é de um tempo sem ti ou sem tu. Já não saberia reconhecer-te. Estou distante, mais distante do que no tempo em que estava longe e mais longe do que qualquer distância. Perdoa-me a fuga, mas cerca-me a vida exatamente como ela é e a ti nunca soube como dar-te vida. Olho para uma fotografia, entro nela e perco-me em viagens metafóricas e circulares que jámais me levarão à realidade que não sei se alguma vez o foi ou se esta fotografia existe mesmo. Tu estás do outro lado do mundo e eu só quero este pedaço onde me encontro com todas as coisas palpáveis e desejáveis. Não sei como te dizer, sem mácula, sem tristeza, que perdi o gosto pelos teus olhos onde já não sei poisar. Hoje rasgo-te em pedaços, a carne que tanto quis e nunca soube como tocar, as palavras, partidas uma a uma, atiradas para o cesto dos papeis despejado à pressa antes que se transformem em gritos ecoados.
Ontem, há muito tempo, imaginava-te de cabelos soltos ao vento, a caminharmos na praia, unidos por instantes de maresia e vinha-me a tua voz do mar, sussurrante, dizer-me:
SERÁS SEMPRE O MEU AMOR.
Entretanto ceguei lentamente, já não te vejo e deixei de te ouvir! Talvez tu digas ainda "meu amor" e caminhes sozinha pela praia como uma gaivota solitária, e eu digo-te para seres livre, para esqueceres e voares. Livra-te das noites de insónia, fecha os olhos e adormece o coração sufocado, o meu adormeceu profundamente e se algum dia estremecer dentro do corpo, será, certamente por uma outra razão. As minhas mãos deixaram de suar quando penso em ti, estou seco! Apercebi-me, de um dia para o outro, que já nada abana quando pronuncio o teu nome. A tanto olhar no teu olhar seguiu-se o cansaço. Peço-te que me esqueças e seremos livres.

sexta-feira, 11 de março de 2011

CARTAS ANÓNIMAS


Sento-me ao teu lado e procuro o canal que não encontro. De comando na mão, vou passando de um para outro, quase frenéticamente, enquanto os cabelos te passam pelas costas em gestos soltos e rebeldes como se tivessem nas pontas as palavras que te quero dizer...
Quando me sento ao teu lado e seguro o copo com um gesto tímido, quero dizer-te, sempre... lembro-me sempre do dia em que te vi... quero sempre falar-te do dia em que desci a duna debaixo de um sol frágil de Abril. Estavamos inconstantes e inseguros, eu e o sol, na praia quase deserta, a meio de uma tarde quase insignificante e desciamos os dois, eu e o sol, com andar pesaroso. Foi quando deparamos com o teu biquini cor-de-rosa, de um tamanho quase inexistente, mas de uma luz praticamente ofuscante que nos paralisou. As areias moveram-se em torno dos pés como que a quererem engolir o dia. O mar pareceu-me, então, demasiado pequeno, também ele cor-de-rosa! Nunca tinha visto um mar tão diminuto e de uma cor tão transcescente! Tentei continuar a caminhada, mas os pés caíram perto de ti, ridiculamente prostrados, e todo o meu corpo a teus pés! Os óculos escuros ocultavam-te os olhos carregados de ironia, bem sei! Presa aos fones que te vinham das orelhas e as pernas bamboleantes sob uma música qualquer que eu não ouvia mas, idiota, me pôs a dançar, não sei que tango! A ti submetido, debaixo do sol, encostado aos cardos, num silêncio sufocante, cortado apenas pela brisa que me atravessava de vez em quando. Ali me detive entre olhares fugidios e disfarçados. Foi então que me deitei de bruços, a cabeça sobre o braço e os meus olhos escondidos a espiarem-te durante horas, inerte, as palpebras cansadas de se manterem abertas e feridas pela luz do teu biquini! Raios! Não sei se foi o teu biquini cor-de-rosa, se foi o tamanho do teu biquini, se o teu corpo deitado e dançante!... Não Sei! Escondias os olhos atrás dos óculos escuros, fechavas os ouvidos com os fones, afundavas-te na música e o teu biquini roubava-me as palavras! Mas falar-te foi uma inevitabilidade, ao mesmo tempo uma aventura e um sacrifício. Sabes isso, não sabes?
Passo de canal em canal e não encontro o canal certo, enquanto os teus cabelos se estendem desinteressadamente pelas costas, as tuas e as do sofá. Tento encontrar o jeito certo de me sentar, de pegar no copo e de te dizer... já te contei, em pormenor, o dia em que te vi?... Os teus olhos estão hoje exatamente com a cor que tinham no dia em que te vi, exatamente estáticos, exatamente tristes, perdidos e abandonados! Ainda tens aquele biquini cor-de-rosa? Queria atrever-me a perguntar-te. Não? Deixa lá! No fundo... no fundo, o que eu queria era ver-te sem biquini. Sabes isso não sabes? Deixa lá! No fundo, só queria falar-te de uma tarde de Abril, de um mar de cor fulgorante e uma inquietude abrasiva a comer-me a alma, há muito tempo... Mas deixa lá! Fica para outro dia.