segunda-feira, 26 de outubro de 2009

ENQUANTO O COMBÓIO NÃO VEM

Foto: Trás-os-Montes - Rio Tua
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Quero acreditar que tudo faz sentido, até aquilo que não tem sentido nenhum. Há coisas que morreram em mim, como se nunca tivessem sido. E quando me vêm à memória, não me reconheço, sinto-me uma estranha que um dia acampou dentro de mim e partiu sem deixar rasto. Ainda assim, penso que tudo deveria fazer um sentido qualquer, para a vida não se assemelhar a um jogo, a um baralhar de cartas, a um lançar de dados - às vezes a favor outras contra.
Por vezes sou obrigada a concluir que quando encontro o que procuro não encontro nada. Terei de perceber que não adianta procurar. O encontro serve apenas para reafirmar aquilo que já sei por dever de inteligência: não se procura o absurdo. Porém, resta-me uma dúvida: o que é o absurdo? Encontro e vejo, quase de imedito, a imagem a desaparecer num espelho que se embacia, e os pormenores passam a contornos abstractos que só de longe, de muito longe se observam. Possivelmente não procuro nada, apenas não quero desagarrar o desafio que prendi entre os dedos
Às vezes transgrido. Só para por à prova o princípio que nada acontece por acaso. E, por acaso, acontecem-me coisas. Embriago-me, avivo-me, reanimo-me, restituio-me. É só para ver se tudo faz sentido. E depois o constrangimento da percepção do sentido nenhum. Penso que a minha alma ficaria maior se tivesse um blog cor-de-rosa ou falasse de Deus. Sou pequena e acho que nem tudo vale a pena. Paciência! Ele dirá que isto não é filosofia, somente orgulho. E eu direi que sim, um insuportável orgulho que me leva a dizer-lhe que não. Gosto de romãs e não como romãs. Tantos caroços cansam-me. E gosto de o ver comer romãs. Há uma sensualidade inesgotável no modo como ele come romãs. Sou impelida a transgredir por via das romãs. Só para, depois, me poder interrogar se há alguma coisa que faça sentido.
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Oh No - Andrew Bird

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

PARA ONDE VAIS?


Para onde correm as lágrimas? Que procuram elas quando correm? Que profundidade atingem? Que sentido procuram? Que história nos contam? Para que servem?
Medir a intensidade das lágrimas levar-nos-á à intensidade de coisa alguma? Lá fora chove de olhos abertos. Cá dentro escuto, de ouvidos embriegados, um silencio escuro. Respiro lentamente um falso sono de esquecimentos. Vêm- me à memória uns braços, abraços e o calor de um peito. Que peito? Que importa isso agora? Um peito forte como uma parede e macio como uma almofada, onde o meu rosto repousa. Sinto a falta. Não é de ninguém. Sinto uma falta, inexplicável, de calor! Estou viva, sólida e em bom estado. E não sei como utilizar esses predicados! Não me lembro como foi que esta solidão se apossou de mim!

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

QUE É DE MIM?



Quem me conhece, conhece bem a minha paixão pelo "Asterix"- que está a fazer bodas de prata e o medo que partilho com os Gauleses: que o céu me caia na cabeça. Também, quem bem me conhece, sabe da minha admiração pelo "Peninha", a afinidade que tenho com o pato "Donald", a condescendência para com o "Pateta", a camaradagem com o "Recruta Zero", o parentesco com o "Zé Carioca", a amizade com a "Lulu", os esquemas com os "Irmãos Metralha", a sociedade com o "Mancha Negra", o companheirismo com o "Mikey", a amizade com a "Mafalda" e o idealismo pelo "Super-Man".
A música e a BD acompanhara-me toda a vida.
Alguém se lembra da "Vampirela"? Para quem nunca ouviu falar, era uma BD erótica, bastante interessante, que coleccionei há anos. Gostava sobretudo de copiar, a olho, as imagens. Porque desenhar foi a minha primeira paixão. Era eu bem pequenina e sentava-me a desenhar tudo o que via. Mal sabia escrever! Depois comecei a usar técnicas e fazia disso o maior Hobbie. Comecei também a escrever poemas ridiculos, contos e um romance. Até que dei por mim na faculadade, depois no registo civil, depois na maternidade.
Ainda hoje, muitas vezes, deito-me com estes livros à cabeceira, graças às maravilhoasas colecções que salvaguardei e que, felizmente, o meu filho aprendeu a utilizar sem estragar. Nisso sai à mãe. Os livros são sagrados!
Quando fui à terra, há pouco tempo, acariciei a minha colecção de revistas "Música & Som", a revista portuguesa dos anos 80, que eu assinava e pagava antecipadamente para que nenhum nº falhasse. Faltam algumas, é certo, mas ainda estão lá bastantes.
Também tenho uma considerável coleçcão de livros infantis e uma enorme colecção de cassetes de vídeo infantis, das quais nunca me consegui libertar pelas infindáveis vezes que as vi com o meu filho, já sem saber se era ele ou eu quem mais delirava com aquilo!
Hoje colecciono lágrimas e desgostos pelo ou com o meu filho. Bem sei que a adolescência é uma coisa complicada, o que eu não sabia é que ser mãe de um adolescente poderia ser uma quase tragédia. Ando triste, desgostosa, arrasada e sem saber o que fazer da minha vida! Tenho de parar de chorar, penso. Mas não sei como! Hoje pedi ajuda a um grande amigo meu. Não é nenhum psicólogo, mas é o pai do meu filho. E ele veio. Andou muitos quilómetros para o efeito, mas, como sempre e felizmente, quando envio um SOS ele aparece. Foi uma reunião dificil, mas necessária.
Ando para lá de triste. Hoje estou especialmente infeliz. É o arrastar de uma convivência onde sinto uma quase incapacidade de lidar com a situação! E eu que me julgava uma quase super-mãe ou uma quase super-mulher!!!!...............................................

CANSAÇO


Só eu saberei o que já fui. E nem eu saberei o que serei.
A terra alegra-se quando o sol a espreita.
Veste-se de flores garridas e perfumarias.
Parece doida!
Até inventa borboletas!
Há um cansaço que espreita a minha existência.
Como poderemos caçar borboletas sem aprender a voar?
Eu sabia que era amor porque eu me comovia.


"[...] sabe que o meu gostar por você chegou a ser amor, pois se eu me comovia vendo você, pois se eu acordava no meio da noite só pra ver você dormindo, meu Deus...como você me doía! - ( Caio Fernando Abreu )"


E depois fiquei exausta.
E distante do que fui.
Antes eu sabia qualquer coisa, hoje não sei nada!

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

PALAVRAS PARA QUÊ?

Encontrei por aqui esta foto espantosa.
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For your lover give some time - Richard Hawley

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

DESVARIOS

Foto: "Lua cheia"
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A semana passada, tirei esta foto, da janela da minha cozinha . Bem se vê que a minha máquina é uma murraça. Mas a lua estava lá em cima, redonda e enorme, a apelar para qualquer coisa. Tenho uma janela que dá para a lua. E nem me dou conta que tenho uma máquina incapaz de captar a lua tal como eu a vejo. Da janela, eu via a lua e mesmo que a não visse ela estava lá. Eu podia não ter uma máquina para fotografar a lua. Podia até nem ver a lua e ela continuaria lá. Mas eu podia imaginar a lua tal como ela ali estava, cheia e esbelta, muito mais atraente do que na minha fotografia. Da mesma forma que também posso imaginar uma pessoa.
Da janela da minha cozinha eu olho e já não vejo a lua. Agora invento a lua em frente à minha janela. A lua é como o tempo e como as pessoas. Passam e não ficam! Às vezes voltam, e depois vão-se outra vez!
Abandonei a máquina sobre a mesa da cozinha. Parece que já não me faz falta. Houve um tempo em que se enchia de imagens e de sonhos, que depois apagava. Antes, tive uma máquina que se enchia disso tudo, mas permaneciam, não era possível apagar nada, nem mesmo as imagens desfocadas. Mas agora, podemos apagar tudo num instante!
Porém, se eu não tivesse tirado esta fotografia e não a tivesse gravado, poderia pensar que a lua era uma fantasia. Pois podia!
Já não vejo a lua. Não sei por onde anda. Morre o meu olhar na noite escura enquanto espreito pela janela. Tudo me parece um engano! Tudo! Hoje estou tão lúcida que chego a duvidar de mim própria! E a minha máquina fotográfica parece uma ladra de memórias. E o meu pensamento está tão vazio de imagens que parece uma maré baixa. Respiro angústias que prefiro não confundir com saudades.
Fecho a janela. Vou-me embora. Não tenho os olhos verdadeiramente abertos para ver a lua. Esta lucidez está voltada para dentro. E eu nunca tive fé. Nunca conheci nenhum deus. E tenho medo que o céu me caia na cabeça.
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Soldier On -Richard Hawley


terça-feira, 13 de outubro de 2009

INCERTEZAS

Tenho um atrevimento constante a roer-me o espirito. E uma cobardia permanente a constranger-me a vontade. Sou tão descarada que até o àvontade se envergonha. E tão retraída quanto um pêlo encravado. Isto não vem a propósito e até é estupido, mas tenho de dizê-lo: não me façam ouvir Antony and the Johnsons, não suporto, a voz provoca-me alergia, irritação e até mal estar - ouvi ao longe! Talvez um dia, quem sabe eu aprenda a gostar, tal como aprenda a confrontar este receio exacerbado de arriscar levar uma estalada, um não, uma gargalhada, um gozo, um silêncio, em suma: uma rejeição.
Lembro-me de uma noite, há muitos anos, um amigo desafiou-me a convidar um fulano para sair. Nunca o faria, embora andasse a sonhar com isso. E como quem não arrisca não petisca, eu não queria arriscar, arriscando-me a nunca o petiscar. Mas tal foi a convicção do meu amigo que eu agarrei no telefone e vai daí, convidei o rapazito para sair. Prontamente disse-me que não estava interessado. Desde então, vivo com esse trauma a infectar-me a alma. Se antes já era complicado tomar a iniciativa, a partir daí tornou-se um problema. Ora, não é que não saiba lidar com as rejeições, infelizmente já tive de enfrentar muitas e, devo dizê-lo, não faço dramas. Recupero á velocidade da queda, nem sempre, mas pelo menos tento, sigo em frente, nunca desisto de ser feliz.

A questão é mesmo esta: como enfrentar o desejo de avançar e o medo da reacção alheia? E se o alheio se comportar da mesma forma? Seremos como duas linhas paralelas, sem ponto de encontro! Seremos! Penso que jámais saberei como ultrapassar os meus receios. E também penso no que poderia acontecer... ou não acontecer!

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

SEMPRE DIA

Foto: Trás-os -Montes - "Ponte Romana"
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"... soltou-lhe um último olhar. Mandou-lhe um beijo a voar por entre dois dedos esticados, e partiu."
Agora espera - com o coração a fazer tic-tac a um ritmo mais acelerado que o do relógio - o toque do telefone.
É assim quando a paixão começa.
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A frase entre aspas foi plagiada daqui
http://comboioturbulento.blogspot.com/
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Like Treasure - Editors

domingo, 11 de outubro de 2009

PENSAMENTO

Foto: "Contemplação"


O amor é um doce que azeda com o tempo.

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Jihad - Slayer

terça-feira, 6 de outubro de 2009

COM VIVER

Foto: Baía do Seixal


Ela precisava de sentir saudades. Daquelas saudades que enrolam o peito como se fosse papel onde não cabe escrita alguma. Ela precisava de sentir daquelas saudades que nos enchem de um grande silencio onde tudo grita. Só para não se sentir um livro a fechar-se devagar. Para não sentir o cheiro do pó a acomodar-se à sua história.
Tudo é tão previsível que até o inesperado morre no momento seguinte. Tudo o que é novo é acidental e imediatamente suspenso.
Nem sempre a lucidez é vazia de sentimentos. O que lhe falta é cor.
Ela tem um lado diferente, só que está voltado para uma parede branca.

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Just An Ilusion - Imagination

terça-feira, 29 de setembro de 2009

CONFRONTOS


Não te iludas!
Há monstros nos caminhos, de vigilia, escondidos atrás das árvores. E mesmo que derrubes todas as árvores, eles escoder-se-ão por entre as núvens. E mesmo que faça um sol abrasador e apague todas as núvens eles caminharão contigo, infiltrados no teu cérebro.
Há sempre monstros, por isso não te iludas!
Tens é de iludir os monstros.

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Ho Me - Nirvana

sábado, 26 de setembro de 2009

RESSENTIMENTOS




Eram os teus olhos, os teu olhos...
sempre os teus olhos...
espalhados pelas curvas do meu corpo,
a queimar a essência da razão.
Foram os teus olhos,
de noite
a rasgar a pele suada
e o desejo insuperável...
Bem podiam ter sido outros olhos,
mas eram ainda os teus olhos
parasitas com luz a a propagar-se no escuro.
Não sonhei esta noite,
porque o meu corpo perdeu a identidade.
Atravessei a manhã como quem atravessa o universo
e ainda não cheguei!
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Silver Trembling Hands - The Flaming Lips

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Foto: "Daninhas"

Levanto-me bem cedo. Abro o chuveiro e só corre um fio, depois gota a gota! Que é isto? Vou de torneira em torneira e nada. Tenho de me despachar, talvez a água volte depois de tomar o pequeno almoço. Mas não voltou!

Procuro o carro e não o encontro. Não me lembro onde estacionei. Dou voltas à rua e nem sombra dele! Querem ver que o roubaram? Estou com pouco tempo e a começar a desesperar. Por fim alcanço-o completamente escondido entre outros dois que me impedem de sair. Apito. Apito e apito, até que lá aparecem dois imbecis.

Chego ao escritório já meia atarantada. Apercebo-me que não tenho internet e o telefone não dá sinal! Mas o que é que se passa? Desligo cabos, ligo cabos e nada acontece. O tempo urge. Estou a ficar atrasada e detesto atrasos! Do telemóvel ligo para as avarias a comunicar o (in)sucedido. Cai a chamada. Raios! Fiquei sem bateria! Não posso fazer mais nada. Tenho mesmo de ir.

Meto-me no carro. Há um movimento acrescido, as pessoas circulam pelo meio da estrada, alheias ao trânsito! Há carros por todo o lado, parece uma selva agora que as aulas começaram! Quando estou quase a chegar ao local de destino, vejo sinais e bófias por todo lado. Obras. O trânsito cortado! Raios! Estou atrasada. Sigo um outro percurso. Vou distraída a tentar perceber se este dia está mesmo a acontecer ou se estou a sonhar. Tenho de virar á direita, à direita... rodo o volante bruscamente, sem reduzir a velocidade e sem trocar de mudança. Perco o controlo do carro, galgo o passeio, faço umas habilidades quaisqueres e volto à estrada com o coração nos pedais. Devo estar a sonhar!

Chegada ao destino, vou para entrar no parque de estacionamento, estava fechado para obras! Tive de andar às voltas. Percebi então que estava acordada.

De volta ao escritório. Ligo para a Novis. Quero resolver a situação do telefone e da internet. Música. "Marque 1". "Marque 5". "Marque 3". Música. Atende-me uma pessoa com toda as formalidades, com cumprimentos e larguras: "No que posso ajudar?" Explico a situação. Pede-me a identificação e vai reencaminhar-me para outro assiste. Música. Tudo se repete. Música. À terceira pessoa eu digo: "Minha senhora estou a ficar cansada de dar os meus elementos, de explicar a situação, de levar com música e de me sentir uma idiota. Aviso que estou a ficar irritada. Além de que estou a ligar de um telemóvel e a chamada não é gratuita para esta rede..." Responde: "Lamento, mas vou passar ao assistente que trata desses assuntos, eu não posso fazer nada." Música. E gafanhotos a voarem à minha volta. Por fim: "Bom dia, em que posso ajudar?" O cavalheiro tinha uma voz sensual, mas não foi suficiente para me entreter. Repeti os dados e ele mandou-me aguardar! Perdi a paciência e desliguei o telefone para não maltratar o Senhor pois já não estava a conseguir conter-me.

Fumei um cigarro encostada à janela a ver como os gatos brincavam descontraídamente no quintal do rés-do-chão. Hoje o mundo parece-me voltado do avesso! Mas ali, no quintal, o mundo parece uma coisa pequenina e simples, onde tudo está em harmonia.

domingo, 30 de agosto de 2009

Foto: "Trevo de quatro folhas"
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"O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas. Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade."

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- Miguel Esteves Cardoso -
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Foto: "Boneca de trapos"
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"A alegria do Ser, que é a única felicidade verdadeira, não pode vir até si através da forma, ou seja, através de qualquer bem material, feito indiviual, pessoa ou acontecimento - através de qualquer coisa que aconteça. Essa alegria não pode vir até si - nunca. Ela emana da dimensão informe que existe dentro de si, da própria consciência e, por conseguinte, é una com quem você é."
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"A dupla realidade do Universo, composto por coisas e espaço - forma e nada -, é igualmente a nossa realidade. Uma vida humana saudável, equilibrada e proveitosa é uma dança entre as duas dimensões que constituem a realidade: a forma e o espaço"*
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- Eckhart Tolle, em "um novo mundo" - despertar para a essência da vida. -
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*Espaço: é a consciência sem forma e a essência de quem somos, tudo o resto é forma.
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sábado, 29 de agosto de 2009

Foto: Óbidos - "Ruelas, portas e janelas II"
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O ser humano é um ser dependente. Ele cria as suas próprias dependências porque não sabe viver sem elas. É dependente desde a nascença. Tarda em se separar dos pais. A maioria das vezes larga a dependência dos pais para uma outra derivada do casamento ou da união de facto. O ser humano necessita de ter dependências físicas, emocionais e psicológicas. Não necessita apenas das suas mas também das dependências dos outros, essencialmente daquelas que ele próprio cria ou ajuda a criar nos outros.


Era 1H00 da manhã, os Xutos já tinham actuado, andavamos nas caipirinhas, enquanto isso, o marido de uma telefonou seis vezes. Tive de a levar a casa pois só havia um carro e calhara ser o meu. Todo o brilho desaparecera dos seus olhos agora sombreados.
- Sempre tive horários para chegar a casa, só que às vezes, estou tão bem que me esqueço, o pior é depois. Em solteira eram os meus pais que os marcavam, depois passou a ser ele. - disse-me.
- És feliz assim? - Perguntei-lhe.
- Não. - Respondeu-me
- Já fizeste alguma coisa para mudar isso? - Perguntei-lhe
- Não consigo. Ele controla todos os meus passos. - Respondeu-me. - De qualquer maneira, eu não saberia viver sozinha. Nunca seria feliz sozinha. Estou melhor assim.
- Cada um é que sabe das suas dependências. - Comentei por último.

Há dias fui jantar com uma amiga ao tão falado Freeport de Alcochete. Pelo caminho ela desatou a chorar. Já tinha percebido que a felicidade não era coisa que a abordasse muitas vezes, mas achava que ela era tão independente quanto me parecia possível.
- Não suporto o meu marido. Faz-me a vida num inferno! Parece uma coisa, mas é outra, ninguém imagina como ele me trata mal, abaixo de cão. Só não o deixo porque dependo dele económicamente, se não fosse isso, há muito que o teria deixado. - Desabafou.
- Não dependes nada, tens os teus rendimentos, podes muito bem manter-te a ti própria. - Disse-lhe.
- Eu não sou como tu. Nem imaginas como te invejo! Só precisas do dia a dia para andar bem disposta! Mas eu não saberia ser feliz com o dia a dia, preciso de um certo luxo a que estou habituada, de férias no estrangeiro, e poder gastar quanto me apetece e no que me apetece. Como poderia privar-me do tipo de vida que faço? - Disse-me.
- Bom, então as tuas dependências são outras. Cada um é que sabe das suas! A felicidade não é coisa simples, mas quase sempre se encontra na simplicidade. Nunca tive medo de abdicar, mas às vezes tenho medo de arriscar, principalmente quando o risco é o de perder a liberdade a troco de nada. Não me serve para nada um jantar caro num restaurante de luxo sem uma boa companhia e uma conversa agradável, a não ser que o faça sozinha e por deleite próprio. Ter férias no estrangeiro em hotéis luxuosos sempre de trombas um com o outro, ter discussões debaixo de um coqueiro, trata-se apenas de mudar o cenário de guerra para um mais vip. Mas diz-me, os arremessos e os palavrões usados também são mais caros e mais eruditos? Eu prefiro a praia aqui do lado, um guarda sol, um livro e o Mp3 e se tiver companhia ainda melhor. Mas como eu costumo dizer, cada um é que sabe.


Ela fuma, mas o marido não sabe. Porque ambos decidiram deixar de fumar ao mesmo tempo. Parece que ele conseguiu - a menos que também o faça às escondidas - mas ela não.
- Como é possível que ele não se aperceba? Não entendo, o cheiro do tabaco é bastante comprometedor. Bem podes mascar xiclete, vaporizares-te com perfume, sempre há-de ficar alguma coisa. Afinal como é que consegues? - Comentei.
- Com pouco contacto físico. - Disse-me prontamente.
- Xi! Não há beijos, uns apertõezinhos, umas rapidinhas na casa de banho, umas dentaditas no pescoço, uns encostos disfarçados na rua?... abidicas disso só pelo tabaco? Não era melhor falares com ele?... - Eu, feita parva!
- És parva? Ia ser uma chatice, uma grande zanga! Julgas que são todos malucos? Que eu até gostava de ser maluca, já fui noutros tempos, lembraste quando eu namorei com o... Porra! Não me lembres desses tempos! Mas nós dois nunca fomos assim e agora nem pensamos nisso. É melhor assim. - Respondeu.
- Pronto, pronto. Toma lá um cigarro e consola-te. Cada um é que sabe dos seus consolos e desconsolos, das suas dependências. Tu bem sabes, para mim a vida é às cores. Cinzento só mesmo o fumo do tabaco, que eu tanto gosto, diga-se, assumidamente. E tudo o resto não tem nada a haver, nunca terá, com o ser maluco ou não. É preciso temperar o amor permanentemente e isso é possível. Tu sabes que eu sei que isso é possível. E mesmo assim olha que ele acaba por morrer! Claro que não depende só de um, ambos têm o seu papel, é por isso que é importante ser real, livre e independente, só assim o outro o poderá ser também. E a vontade de tocar físicamente e de fazer coisas também cresce com esse sentimento de bem estar, torna-se natural. E quando morre, as recordações deixam um sabor mais doce do que amargo. Mas cada um é que sabe... - Disse enquanto lhe acendia o cigarro.
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Who Wants to live forever - Queen

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Foto: Óbidos - "Ruelas portas e janelas I"
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Há dias em que o coração sorri, sorri!...
É o que se sabe! Como um desvio no escuro e a luz a queimar-nos a vista! Como o nascente, a madrugada! Como a visão depois da cegueira! Como o primeiro passo a seguir a uma queda! Como o primeiro emprego ou a primeira vitória! Como o primeiro baile, o primeiro beijo, a primeira noite!
E depois é o que se sabe! Mas o coração sorri porque ainda não sabe! Ou não quer saber!...
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I Will Surviver - Cake

MUSE

Já li muitas criticas negativas quanto ao novo albúm dos Muse. Não sei, eu devo ter uma pancada qualquer pelo grupo... a príncipio pensava que era a voz do Mattew Bellamy que entrava por mim a dentro como se me possuisse. Mas não é apenas isso! Agora que ouvi Exogenesis - symphony parte I, II e III percebo que há muito mais que uma voz a possuir-me!

HOJE

Esta noite em Corroios Xutos & Pontapés. Lá estarei.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

PENSAMENTOS DISPERSOS

Foto: Óbidos - "Por detrás da fachada"
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Há em ti qualquer coisa que faz o sangue fervilhar nas veias e me conduz como se à beira da fogueira. Vai, não vai. Vai. Posso bem caminhar descalça sobre as brasas e voltar sem qualquer dor, sem qualquer marca. Apenas a vertigem a dançar na cabeça, como se fosse criança e voltasse da feira popular com restos de algodão doce nos cantos dos lábios.
Não sei das minhas fragilidades quando uma das tuas mãos encontra uma das minhas mãos e as linhas se cruzam ou confundem, tranquilamente. Nessa eterna brevidade dos momentos em que o nosso destino é um só, aqui e agora.
Há qualquer coisa em ti que me impede de resumir os dias a horas.
Dizem que deveremos amar alguém com quem gostemos de conversar.
Eu não sei nada sobre o amor. Mas acho que o amor gosta de falar. Acho que um amor silencioso será sempre um amor triste. Mas eu continuo a não saber nada sobre o amor. Apenas sei que há em ti qualquer coisa que me faz falar enquanto o sangue fervilha nas veias e a vertigem parece querer lançar-me na fogueira, nessa fogueira que sinto à beira do caminho.
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I belong to you - Muse