sexta-feira, 13 de agosto de 2010

HÁ DIAS ASSIM


Vivo os dias como peças de um puzle sempre em crescimento, mas nunca cumprido.
Esta manhã encontrei-me com uma pessoa que me disse: "Estive a um passo do suicidio, no último segundo hesitei..." Agarrei-lhe nas mãos... Neste momento penso que esta pessoa algum dia terá sido amada por alguém.
Fui a Setubal com uma amiga.
No regresso ela disse-me:
- Porra! Deviamos ter parado lá atrás, na Sex Shop. Estive lá há dias e digo-te uma coisa, têm lá umas coisas... era tão bonito! Parecia real! A sério! A cor, a textura... fiquei apaixonada, pedi à mulher para mo deixar segurar... tive-o nas minhas mãos, era tão suave, tão apetitoso!...
- O que é que o teu marido anda a fazer?- Perguntei-lhe.
- A dormir. Básicamente dorme. - Respondeu ela.
- AH!... - Exclamei.
Depois do almoço fui à praia. Ligou-me um amigo. Não o atendi. Não estava com capacidade para falar com ele. Mandou-me uma mensagem: "Não sei porque não me atendes o telefone. Tenho saudades tuas." Eu sei porque não lhe atendo o telefone. E, ás vezes, também tenho saudades minhas!
Esta tarde, na praia - tantas praias que existem por aqui e é tão grande a minha praia! - olhei para o lado e vi um rapaz com quem andei envolvida no final do ano passado. Estava especado a olhar para mim e eu fingi que não o vi. A minha amiga (esta amiga já não é a mesma que foi comigo a Setubal) disse que eu estava esquisita, mas eu apenas estava um pouco perturbada. A pensar na minha maneira de ser, na maneira como atiro as coisas para detrás das costas, na minha radicalidade! Ele decepcionou-me e eu neguei-lhe uma segunda oportunidade! Ele brincava com a filha na água e eu, escondida atrás dos óculos escuros observava-o. Enquanto o observava escondida atrás dos meus óculos escuros e ele me observava descaradamente, senti-me só!
Ontem à noite, esta minha amiga veio jantar comigo e insistiu em telefonar ao homem por quem está apaixonada. Não desiste! Antes de ir ter com ele, pintei-lhe os olhos, arranjei-lhe o cabelo, pus-lhe um colar e uns brincos meus, tirei-lhe umas fotos artísticas e garanti-lhe que ele não lhe iria resistir. Ele não lhe resistiu!
- Convidou-me a passar um fim-de-semana com ele no Porto! - Disse-me hoje, ao fim da tarde, quando o vento nos arrastava os cabelos para sul.
- Vai. - Disse-lhe eu. - Não percas a oportunidade.
- Mas também me disse que eu não sou a mulher da vida dele. - Disse-me ela com o olhar perdido no mar.
- Não ligues. Ele não te deveria ter dito isso num momento desses! Pediste-o em casamento? Que imbecil! Mas não te preocupes. Não há homens nem mulheres da nossa vida, tudo isso é uma treta! O que há é homens e mulheres que, por qualquer razão, se encontram. Vai. Vive um dia de cada vez. - Disse-lhe eu.
Ela segurou a minha mão, apertou-a e, de repente, abraçou-me com lágrimas nos olhos.
Vim para casa, liguei ao meu filho que foi para Monte Gordo e disse-me que estava em Espanha, completamente radiante! Senti-me feliz por ele.
Preparei um jantar caprichado para mim mesma e enquanto o fazia, liguei áqueles amigos para quem não tenho estado presente.
Jantei sozinha, com a tranquila certeza que os dias são peças de um puzle, sempre a crescer, mas nunca cumprido!

.

Um comentário:

comboio turbulento disse...

apesar das sex-shops terem artefactos curiosos e dignos da nossa observação, é bom que não escapemos para eles, esquecendo-nos que homem e mulher, mesmo que difíceis que somos, continuamos a existir. Viva a complexidade de nos entendermos uns aos outros ( e a nós mesmos, já agora :)

bfs